A tragédia dos comuns cognitivos: por que cortar juniores por causa da IA pode custar caro em 2035
Existe um tipo de decisão que faz todo sentido para cada empresa isoladamente e, ao mesmo tempo, é um desastre quando todas tomam a mesma decisão. Cortar as vagas de nível júnior porque “agora a IA faz esse trabalho” é exatamente uma dessas.
Essa é a tese de um artigo recente de Nolan Lovett, pesquisador da NATO Special Operations University. Ele deu um nome preciso ao problema: a tragédia dos comuns cognitivos. E, uma vez que você entende o mecanismo, fica difícil desver.
A velha tragédia, em versão nova
O conceito original é de 1968, do biólogo Garrett Hardin. Imagine um pasto comum, aberto a todos os pastores de uma vila. Para cada pastor, colocar mais uma vaca no pasto é lucro certo. O custo do excesso — o pasto se esgotando — é dividido entre todos. Resultado: cada um age de forma racional, coloca mais gado, e o pasto morre. A soma de decisões individualmente inteligentes produz um desastre coletivo.
Lovett aplica essa lógica à expertise profissional.
Quando uma empresa substitui um analista júnior por IA, ela captura 100% do ganho de eficiência — menos folha de pagamento, mais velocidade. Mas o custo dessa decisão, a lenta erosão da capacidade de formar profissionais experientes, não recai sobre ela sozinha. Ele se dilui por todo o setor e, pior, é empurrado anos para a frente.
É racional para cada empresa cortar juniores. Mas se todas fizerem isso, a profissão inteira para de fabricar os seniores de amanhã. Ninguém decidiu destruir a expertise coletiva — ela morre como efeito colateral de escolhas locais perfeitamente sensatas.
O mecanismo tem duas engrenagens
A primeira é óbvia: a vaga de entrada desaparece. A IA assume as tarefas que antes eram do estagiário ou do júnior — a pesquisa jurídica repetitiva, o primeiro rascunho do código, a planilha inicial de análise.
A segunda é mais traiçoeira e quase ninguém enxerga: mesmo quando o emprego júnior sobrevive, o aprendizado não acontece. Com IA, o júnior atinge em meses um nível de entrega que antes levava anos. Parece ótimo. Mas o esforço cognitivo que constrói conhecimento profundo — errar, apanhar, refazer, entender por quê — foi pulado. A pessoa entrega resultado sem passar pela travessia que formava o expert.
Produtividade sobe. Formação despenca. E os dois acontecem ao mesmo tempo, o que torna o problema fácil de ignorar.
O paradoxo que esconde a bomba-relógio
Aqui está o ponto mais desconfortável do artigo. Se cortar juniores destrói a formação de experts, por que ainda não sentimos o baque?
Porque os experts que seguram a operação hoje foram formados há 5, 10, 20 anos — antes da IA. Eles mascaram o buraco. A casa parece funcionar porque a geração experiente ainda está lá.
Lovett chama isso de “paradoxo da reserva humana”. Os efeitos de cortar vagas de entrada a partir de 2023 só devem se manifestar com força entre 2030 e 2045, quando a geração que não foi formada deveria estar assumindo os cargos de senioridade. É uma dívida que vence daqui a uma década — e que estamos contraindo agora, em silêncio.
O “cabo de validação”: você precisa saber para poder supervisionar
Tem um detalhe que fecha o argumento e deveria assustar qualquer gestor. O discurso confortável do momento é: “tudo bem cortar juniores, porque humanos vão supervisionar a IA”.
Só que supervisionar bem a IA exige exatamente o conhecimento profundo que o uso da IA está corroendo. Um modelo erra de forma plausível — a resposta parece certa. Detectar esse erro sutil não é pegar uma contradição óbvia; é ter domínio real do assunto. Sem experts formados de verdade, não sobra ninguém capaz de auditar a máquina. Você fica preso a confiar numa ferramenta que ninguém mais consegue conferir.
Quer levar este tema para a sua empresa?
Fernando Barra apresenta palestras e treinamentos sobre Inteligência Artificial e Futuro do Trabalho para equipes e lideranças.
Conhecer as palestrasOs números não são especulação
O artigo reúne evidências que já começaram a aparecer:
- O Federal Reserve aponta que o crescimento de vagas em programação caiu pela metade desde o lançamento do ChatGPT.
- Um estudo do MIT mostrou que até 80% das pessoas não conseguiram lembrar o conteúdo do próprio texto escrito com ajuda de IA.
- Em testes com desenvolvedores, quem usou IA pontuou 17% pior em provas de conhecimento.
- Um estudo suíço com 666 pessoas encontrou correlação negativa forte entre uso de IA e pensamento crítico — mais intensa na faixa de 17 a 25 anos.
- Na China, um estudo registrou notas de tarefas subindo 18%, enquanto o desempenho em provas caía até 24% — o efeito completo aparecendo depois de cerca de dois anos.
Quais profissões correm mais risco? Segundo Lovett: engenharia de software, análise financeira e pesquisa jurídica. Mais protegidas, por regulação rígida e conselhos fortes: medicina e engenharia.
O que fazer — sem virar as costas para a IA
O ponto mais importante: Lovett não propõe proibir a IA. Isso seria a leitura preguiçosa. O recado é sobre como usar. As sugestões:
- Ambientes de aprendizado livres de IA em parte da formação, para o esforço cognitivo realmente acontecer.
- Introdução faseada da IA, não de uma vez.
- Definir um baseline de desempenho humano antes de automatizar.
- Conselhos profissionais certificando competência real, além de fluência em IA.
E o fator que decide tudo, no nível individual: quem usa a IA como substituto do pensar perde habilidade cognitiva mais rápido; quem a usa como ferramenta para entender melhor — pedir explicações, contra-argumentos, caminhos alternativos — reduz muito o dano. A mesma ferramenta, usada de dois jeitos, produz resultados opostos.
O que isso significa para você (e para o Brasil)
Para líderes e empresas: aquele corte de vaga júnior que parece só eficiência é, no fundo, um empréstimo. Você pega o ganho hoje e paga a conta em 2035, quando faltar gente com bagagem para ocupar os cargos seniores — e para supervisionar a própria IA. Vale desenhar trilhas em que o júnior use IA para acelerar o aprendizado, não para pular o aprendizado.
Para profissionais, sobretudo os mais jovens: a IA pode te dar produtividade de sênior sem te dar a cabeça de sênior. Proteja deliberadamente os momentos em que você pensa sem muleta — resolver do zero, escrever sem autocompletar, entender antes de aceitar a resposta pronta. Essa é a parte que constrói o profissional que a máquina não substitui.
Conclusão
A tragédia dos comuns cognitivos não é uma profecia de fim do mundo. É um alerta sobre incentivos: o que é ótimo para cada um, agora, pode ser péssimo para todos, depois. E a boa notícia é a mesma de sempre — problemas de incentivo se resolvem com escolhas conscientes. Desde que a gente decida enxergar a conta antes de ela vencer.
Prepare a sua equipe para o Futuro do Trabalho
Leve uma palestra ou treinamento de Fernando Barra sobre Inteligência Artificial, produtividade e desenvolvimento de talentos na era da IA.
Falar com o FernandoConheça as palestras do Fernando
Fernando Barra
Palestrante, escritor e professor com 25 anos de experiência em tecnologia e inovação, com passagens por Cognos e IBM. Autor dos livros Meu Emprego Sumiu e Inteligência Artificial Ampliada, fundador da Skillplace, professor na Link School of Business e colunista sobre o Futuro do Trabalho na rádio Nova Brasil FM.