Fernando Barra | Blog

O futuro do trabalho tem cheiro de graxa

Por Fernando Barra · · 3 min de leitura

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Imagina a cena.

Uma sala de reunião, décimo andar, ar-condicionado gelado. Na tela, uma apresentação sobre inteligência artificial. Alguém fala em cortes, em automação, em eficiência. Todo mundo quieto, olhando pro próprio crachá.

E de repente, acaba a luz.

Escuridão. Silêncio. A apresentação morreu. A IA morreu. O prédio inteiro, mudo.

Quem salvou o dia naquela tarde não foi o algoritmo. Foi um homem de bota, subindo a escada de serviço com uma lanterna na testa. O eletricista.

A ironia que ninguém previu

Enquanto escritórios do mundo inteiro dispensam analistas por causa da automação, a procura por eletricistas explodiu. E o motivo é quase poético: os data centers da inteligência artificial precisam de energia, de cabos, de mãos.

A máquina que ameaça o crachá depende do sujeito de capacete.

Passamos décadas dizendo pros nossos filhos: estuda, senão vai trabalhar com as mãos. E agora, o trabalho manual virou um dos mais protegidos da nova economia.

Mas calma. Este artigo não é um convite pra você largar tudo e fazer curso de elétrica.

É um convite pra entender por que a IA não alcança esse trabalho. Porque a resposta não é a graxa. A resposta é uma palavra que quero te apresentar hoje.

Senciência: a palavra que te protege

Senciência é a capacidade de sentir. Só isso. E é tudo.

É o arrepio quando toca aquela música que te leva pra um lugar que você tinha esquecido. É o frio na barriga antes de uma decisão importante. É o nó na garganta diante de uma injustiça.

A máquina simula emoção, mas não vive nenhuma. Um robô reconhece um rosto triste e responde com uma frase gentil. Mas ele não chora no cinema. Ele não se emociona com o olhar de alguém que se redescobre. Ele processa. Executa.

Máquinas calculam. Humanos sentem.

E é a senciência que protege o eletricista. Não é só a mão que aperta o parafuso. É a mão que sente o fio quente. É o olho que percebe o perigo antes do sensor. É o corpo inteiro, presente, num lugar onde nenhum modelo de linguagem consegue estar.

E o seu trabalho, sente?

Agora pensa no que você faz todos os dias.

Quando você percebe que o cliente disse sim, mas o olhar disse não. Quando você segura uma resposta porque sentiu que não era a hora. Quando você entra numa reunião e capta a tensão no ar antes da primeira palavra.

Isso é senciência. E isso não se automatiza.

A IA vai escrever relatórios melhores que os seus. Vai analisar dados mais rápido que você. Vai responder e-mails enquanto você dorme. Mas ela nunca vai sentir o peso de uma decisão, a dor por trás de um dado, a pessoa por trás do sistema.

No meu livro, Inteligência Ampliada, eu escrevo que por trás de cada dado existe uma dor, e por trás de cada sistema existe um ser. Quem enxerga isso não compete com a máquina. Amplia-se com ela.

Leve essa provocação para o seu palco

Fernando Barra leva a palestras e eventos a conversa sobre o futuro do trabalho e a senciência — o que só o humano faz num mundo de máquinas.

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A pergunta que fica

Então a questão não é se o seu trabalho é de tela ou de ferramenta, de escritório ou de rua.

A pergunta é outra.

Quanto do que você faz ainda passa pelo que você sente?

Porque no dia em que a resposta for “nada”, a luz já apagou.

Você só ainda não percebeu.

Continue no livro

“Por trás de cada dado existe uma dor, e por trás de cada sistema existe um ser.” Essa é a ideia central de Inteligência Artificial Ampliada, de Fernando Barra.

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Fernando Barra, palestrante de Inteligência Artificial

Fernando Barra

Palestrante, escritor e professor com 25 anos de experiência em tecnologia e inovação, com passagens por Cognos e IBM. Autor dos livros Meu Emprego Sumiu e Inteligência Artificial Ampliada, fundador da Skillplace, professor na Link School of Business e colunista sobre o Futuro do Trabalho na rádio Nova Brasil FM.

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