Não gosto do meu trabalho e tenho medo de ser substituído pela IA
O domingo ainda não acabou, mas você já está pensando na segunda-feira.
Você sabe quais mensagens vai encontrar, quais problemas vão voltar e quais tarefas vão ocupar boa parte do seu dia. Só de imaginar, sente um cansaço que o fim de semana não conseguiu resolver.
Talvez ninguém perceba. Você continua entregando, participando das reuniões e respondendo quando alguém precisa. Por fora, a vida profissional segue funcionando. Por dentro, cresce uma pergunta que você nem sempre consegue dizer em voz alta:
“É isso que eu quero continuar fazendo?”
Você pensa em mudar. Às vezes, procura vagas, considera um curso ou imagina trabalhar em outra área. Mas logo aparecem as contas, as responsabilidades e o medo de trocar uma situação conhecida por outra que pode ser ainda mais difícil.
Então você fica. E tenta seguir.
Até que vê uma demonstração de inteligência artificial fazendo algo parecido com uma tarefa que você levou anos para aprender.
Nesse momento, a insatisfação ganha uma companhia: a insegurança.
“Eu já não gosto tanto do que faço. E se, daqui a pouco, nem precisarem mais de mim?”
Essa combinação pode deixar você paralisado. Sair parece arriscado. Ficar também. Aprender alguma coisa nova parece necessário, mas aprender o quê?
Sua equipe vive essa insegurança?
Fernando Barra apresenta palestras e treinamentos sobre Inteligência Artificial e Futuro do Trabalho que ajudam pessoas e lideranças a transformar o medo da IA em direção.
Conhecer as palestrasQual é o seu trabalho?
Antes de escolher mais um curso ou tentar adivinhar qual profissão estará em alta, vale olhar com atenção para uma pergunta que costuma receber uma resposta automática:
Qual é o seu trabalho?
Provavelmente, você pensou no seu cargo. Analista, gerente, vendedor, professor, assistente administrativo. Ou respondeu com uma lista de atividades: faço relatórios, atendo clientes, preparo aulas, organizo documentos.
Essas respostas descrevem sua rotina e sua posição. Mas ainda deixam uma parte importante de fora: quem precisa do que você faz e o que melhora na vida dessa pessoa por causa disso.
Quando essa ligação desaparece da nossa percepção, o trabalho pode virar uma sequência de obrigações. Você sabe o que precisa entregar até sexta-feira, mas já não consegue explicar por que aquilo importa.
E, se você enxerga sua contribuição apenas como uma lista de tarefas, cada nova possibilidade de automação parece colocar em dúvida tudo o que construiu.
Emprego é formato; trabalho é o problema que você resolve
Há uma distinção que desenvolvo no meu livro Meu Emprego Sumiu! e que pode ajudar a organizar essa inquietação:
O emprego é o formato; o trabalho é o problema humano que você ajuda a resolver.
O formato inclui cargo, contrato, horário e estrutura da empresa. O trabalho aparece na contribuição que você oferece a alguém.
Pense, por exemplo, em uma situação hipotética: uma profissional prepara relatórios financeiros. Quando descreve sua atividade, diz que reúne dados, atualiza planilhas e envia arquivos.
Ao olhar para quem recebe esses relatórios, porém, ela percebe outra dimensão: ajuda uma pessoa a compreender a situação do negócio e decidir como usar recursos limitados.
Essa percepção abre perguntas mais úteis. Os relatórios estão sendo compreendidos? As informações chegam a tempo? Quais dúvidas continuam sem resposta? O que ela precisa aprender para ajudar melhor?
A tecnologia pode mudar a maneira de executar essa atividade. Entender a finalidade permite avaliar o que automatizar, o que revisar e onde concentrar atenção.
Isso não garante a continuidade de um emprego. Mas oferece uma referência mais concreta para pensar no próximo passo.
O exercício de definição do trabalho
É aqui que entra o exercício de definição do trabalho.
Pegue uma folha ou abra uma nota no celular. Por alguns minutos, deixe de lado o nome do seu cargo e responda a três perguntas:
1. Quem é uma pessoa real cuja vida melhorou com o que você faz?
Pense em alguém específico: um cliente, um colega, um aluno ou uma pessoa que recebeu sua orientação. Comece por um nome e uma situação que você consegue lembrar.
2. Qual problema você ajudou essa pessoa a resolver?
Descreva a dificuldade que existia. Ela estava confusa? Precisava decidir? Não conseguia realizar alguma coisa? Perdia tempo tentando encontrar uma informação? O que mudou com sua ajuda?
3. Quais habilidades você usou para ajudar?
Considere os conhecimentos técnicos e também o que a situação exigiu de você: escutar, investigar, explicar, organizar, negociar, perceber um erro ou assumir uma decisão.
Procure responder com fatos. Se escreveu “gerei valor”, tente explicar o que aconteceu. Se escreveu “usei comunicação”, lembre o que precisou comunicar e por que aquilo fez diferença.
A partir dessas três respostas, experimente completar:
“Eu ajudo [pessoa ou grupo] a resolver [problema], usando [habilidades].”
No exemplo hipotético dos relatórios, a definição poderia ser:
“Eu ajudo pequenos empresários a entender suas receitas e despesas para tomar decisões, usando análise financeira, organização e uma comunicação que eles consigam compreender.”
Agora existe algo para examinar além de um cargo.
Você pode descobrir que gosta do problema que resolve, mas está desgastado com as condições em que trabalha. Pode perceber que uma habilidade importante quase não aparece na sua rotina. Ou reconhecer que deseja ajudar outras pessoas, com outros problemas, em um contexto diferente.
Essas descobertas apontam para mudanças distintas. Por isso, merecem atenção antes de uma decisão sobre carreira.
Se você tiver dificuldade para lembrar de alguém que ajudou, dê tempo à pergunta. Algumas contribuições acontecem nos bastidores, longe de quem recebe o benefício. Procure uma situação pequena e concreta. Você também pode conversar com quem recebe suas entregas para entender como elas são usadas.
De volta ao medo da inteligência artificial
Depois, volte ao medo da inteligência artificial com suas respostas em mãos.
Quais tarefas dessa contribuição podem receber apoio da tecnologia? Quais exigem conhecer melhor a pessoa e a situação? O que você precisa aprender para avaliar a qualidade do resultado e responder por ele?
Assim, a escolha do próximo curso, projeto ou conversa passa a ter uma finalidade. Você começa a estudar para resolver melhor um problema que consegue nomear.
O exercício não elimina uma rotina ruim, nem resolve sozinho questões de salário, gestão ou condições de trabalho. Também não significa que encontrar sentido tornará aceitável qualquer situação.
Sua utilidade é oferecer um ponto de partida quando tudo parece misturado: insatisfação, medo, experiência, desejo e necessidade de mudança.
Você pode continuar sem uma resposta definitiva sobre o futuro. Mas já terá elementos para investigar uma direção e experimentar um próximo passo.
Em Meu Emprego Sumiu!, aprofundo essa relação entre trabalho, conexão e desenvolvimento. A reflexão começa pela tecnologia, mas chega às pessoas: aquelas que precisam da nossa contribuição e aquilo que precisamos desenvolver para ajudá-las.
Antes de encerrar esta leitura, escreva o primeiro nome do exercício.
Quem foi a última pessoa que você ajudou com o seu trabalho — e o que ficou melhor para ela?
Aprofunde essa reflexão no livro Meu Emprego Sumiu!
Uma jornada sobre a maior revolução do trabalho da história — e sobre como enxergar o trabalho além do emprego, para descobrir onde a sua contribuição faz diferença.
Conhecer o livroAssista à aula completa: meu emprego vai sumir?
Na aula, Fernando mostra como se tornar um profissional à prova de IA, olhando para o trabalho além do emprego.
Fernando Barra
Palestrante, escritor e professor com 25 anos de experiência em tecnologia e inovação, com passagens por Cognos e IBM. Autor dos livros Meu Emprego Sumiu e Inteligência Artificial Ampliada, fundador da Skillplace, professor na Link School of Business e colunista sobre o Futuro do Trabalho na rádio Nova Brasil FM.